"O passado não reconhece seu lugar: está sempre presente (Mário Quintana)

7.3 - O Renascimento



A crise do feudalismo, o fortalecimento do comércio e das cidades, a consolidação das monarquias nacionais e a conquista da América[1], provocaram profundas mudanças na economia, na política e na sociedade. Acompanhando essa nova realidade, os valores e as ideias que caracterizavam o pensamento medieval também foram sendo, lentamente, substituídos. Todas essas mudanças foram aceleradas pelo Renascimento, movimento intelectual e cultural que teve como uma de suas principais marcas a valorização do ser humano e a utilização da razão para pensar e agir sobre o mundo. O Renascimento marca a passagem do mundo medieval para o mundo moderno. 
Nessa passagem,  as artes, a filosofia e as ciências sentiram diretamente os efeitos da nova maneira de pensar.  O termo renascimento foi criado pelos próprios artistas, escritores e cientistas da época. Essas pessoas pretendiam fazer renascer a cultura e resgatar os conhecimentos desenvolvidos pelos povos da antiguidade e que haviam sido esquecidos durante a Idade Média, conhecida, a partir desse momento, como “Idade das Trevas”. Isso não significou, entretanto, que o movimento renascentista tivesse o objetivo de retornar a antiguidade. [2] 

 Os valores do Renascimento
Durante a Idade Média as pessoas viviam presas a sua posição social, preocupadas mais com a vida após a morte do que com a vida terrena, acreditando que a Terra era plana e que todos os acontecimentos e fenômenos eram determinados pela vontade de Deus. Com o Renascimento, essas “crenças” passaram a ser questionadas e foi surgindo um ser humano mais confiante em suas possibilidades e que deixou de querer explicar e entender tudo pela fé e vontade divina.  Para substituir os valores dominantes da Idade Média, os renascentistas, ou humanistas, como também eram chamados, formularam três novos valores: Humanismo, Racionalismo e Individualismo.


Humanismo: em vez de um mundo teocêntrico, isto é, onde Deus está no centro e onde tudo que acontece é relacionado as suas vontades, os renascentistas defendiam o pensamento de que era preciso construir um mundo em que o homem estivesse no centro (antropocentrismo) e pudesse olhar para si mesmo como sendo responsável por sua própria vida.
Racionalismo: uma das principais marcas do Renascimento foi a valorização da razão. Ao invés da fé para explicar o mundo, os renascentistas afirmavam que o uso da razão seria a única alternativa para se alcançar a verdade. Para isso, pretendiam modificar o ensino dado pelas universidades medievais, onde até então, predominavam os valores da Igreja Católica. O Racionalismo foi empregado principalmente pelas ciências. Os métodos experimentais e a observação da natureza se tornaram critérios obrigatórios para os cientistas modernos.
Individualismo: para os renascentistas, o homem deveria passar por uma grande mudança de comportamento. As diferenças individuais dos homens deveriam ser reconhecidas e respeitadas. Esse valor está intimamente associado ao espírito de competição da burguesia.
O movimento renascentista pode ser melhor compreendido se compararmos os valores que predominavam na Idade Média com os valores que passaram a predominar na Idade Moderna.

A nova realidade
         O Renascimento teve início nas cidades italianas no século XV e espalhou-se pela Europa no século XVI. [3] Embora tenham se adequado as particularidades de cada região, as novas ideias e atitudes foram inspiradas pelas mudanças sociais que passaram a ocorrer em todo o continente. Assim, o aumento da população, o desenvolvimento das cidades e o fortalecimento da burguesia, foram fundamentais para a expansão do pensamento humanista.
Desenvolvimento e crescimento das cidades e do comércio: o Renascimento foi um movimento essencialmente urbano. O comércio movimentado das cidades estimulava a competitividade entre os burgueses, que, por sua vez, valorizavam a razão e defendiam o individualismo. Para os burgueses, ser individualista significava concorrer de forma livre no comércio, poder escolher sua forma de pensar e estar livre da influência da Igreja Católica.
A ação dos mecenas: O trabalho de artistas e pensadores do renascimento dependeu do apoio financeiro que receberam dos mecenas, homens ricos que estavam interessados no desenvolvimento cultural. Eram os mecenas, na maioria das vezes burgueses, que financiavam a construção de igrejas e de edifícios públicos.


Desenvolvimento da imprensa: A imprensa foi desenvolvida pelo alemão Johann Gutenberg e foi uma das maiores inovações técnicas do período, já que até então, a única forma de reproduzir livros era copiando-os a mão. Dessa forma, a imprensa foi fundamental para a divulgação do novo pensamento na medida em que facilitou a impressão de livros, de textos e de panfletos em uma escala muito maior e permitiu uma mais rápida divulgação dos valores humanistas do Renascimento.

















     As expressões do Renascimento

Renascimento artístico e cultural
Os valores do Renascimento foram decisivos para as mudanças culturais que passaram a ocorrer. O espírito crítico, defendido pelo racionalismo, despertou o desenvolvimento do conhecimento científico. Da mesma forma a valorização do ser humano representou para a literatura, para a filosofia e para as artes plásticas uma verdadeira revolução.
Artes plásticas e Literatura
Com o Renascimento a produção artística e intelectual foi se afastando da religiosidade e da forte influência da Igreja Católica. Tanto as artes plásticas como a literatura passaram a acompanhar as ideias humanistas do período. Assim, além de aspectos religiosos, artistas e escritores passaram a se interessar e explorar outras questões da sociedade dando maior destaque para o indivíduo.  As principais expressões artísticas do Renascimento foram a pintura, a escultura e a arquitetura. De maneira geral, inspirando-se na Antiguidade, principalmente em modelos clássicos de gregos e romanos, os renascentistas procuravam substituir a fé e os valores feudais que caracterizavam as obras medievais pelo espírito humanista, produzindo assim, obras mais próximas a realidade.

Os pintores aperfeiçoaram a  técnica da perspectiva, permitindo dar uma sensação de profundidade, a pintura a óleo, criando cores mais vivas e atraentes, e desenvolveram técnicas de pintura, como o jogo de luz e sombra que dava expressão aos objetos e seres em cena. Com isso, cenas do cotidiano e paisagens naturais, ignoradas pelos artistas medievais, passaram a ser representadas. O corpo humano, antes esquecido ou escondido, foi valorizado na escultura e na pintura. Na arquitetura, ocorre o rompimento com o estilo gótico[4] e na construção de palácios e igrejas foram retomadas as linhas retas, as colunas e arcos que caracterizavam a arquitetura greco-romana. Nas artes devemos destacar: Leonardo Da Vinci , Sandro Botticelli Rafael Sanzio,  e Michelangelo.
























O humanismo e o racionalismo significaram grandes mudanças também na literatura. Inspirados em Homero e Platão, por exemplo, vários escritores procuraram recuperar o estilo da Antiguidade Clássica. O aperfeiçoamento da imprensa, que permitiu a impressão de muitas páginas em pouco tempo, teve grande importância para a divulgação das obras. Entre os principais escritores podemos citar: Thomas Morus, William Shakespeare, Erasmo de Roterdã, Miguel de Cervantes, Luís de Camões e Nicolau Maquiavel.

Renascimento científico

A expansão dos valores do Renascimento não permitiu somente o desenvolvimento de novas formas de arte.  Alguns estudiosos falam que o período foi marcado pelo  “renascimento científico”, onde vários campos do conhecimento como a astronomia, a matemática, a física e a medicina avançaram. A renovação da mentalidade trouxe grande benefício para a ciência, que passou por inúmeras mudanças. Resgatando o conhecimento construído pelos pensadores da antiguidade e o comparando a novas descobertas baseadas na observação, os renascentistas foram dando respostas a inúmeras perguntas e modificando o entendimento daquilo que até então era tido como verdadeiro e defendido pela Igreja Católica.
A postura crítica dos novos cientistas, que colocavam em dúvida o conhecimento e as tradições medievais, foi essencial para a construção do novo conhecimento. Tudo aquilo que não podia ser comprovado não deveria ser aceito como verdadeiro. Através da razão, os homens desse tempo rompiam com o monopólio de conhecimento exercido pela Igreja ao longo da Idade Média.

Estudos de anatomia humana e a medicina
A preocupação com o ser humano foi marcante entre os renascentistas. Nesse período realizaram-se importantes estudos visando um maior conhecimento sobre o corpo humano. Vários cientistas se dedicaram a saber mais sobre o funcionamento do corpo humano. Por meio da dissecação de cadáveres, André Vesálio (1514-1564) e Miguel de Servet (1511-1553) possibilitaram importantes progressos no campo da anatomia. Ambos foram acusados de heresia pela igreja católica. Ainda no campo da medicina, o suíço Paracelso (1493 – 1541) comprovou a importância dos estudos químicos para o desenvolvimento do saber médico.

Novas tecnologias
As grandes navegações que possibilitaram a “descoberta,” conquista e exploração da América só foram possíveis devido aos avanços tecnológicos.  Instrumentos como a  bússola e o astrolábio, o desenvolvimento da cartografia e o aperfeiçoamento de embarcações beneficiaram a expansão marítima. O aprimoramento da pólvora permitiu o surgimento das primeiras armas de fogo e transformou radicalmente a estratégia militar.  Além disso, a invenção do relógio mecânico, ainda no século XIV, foi uma das mais revolucionarias e  ilustra bem o novo momento vivido.

Física e Astronomia    
  Uma das principais teorias apresentadas durante o Renascimento foi a heliocêntrica, apresentada por Nicolau Copérnico em 1543. A teoria defendia que o Sol ocupava o centro do universo e negava a teoria geocêntrica, formulada por Ptolomeu, que prevaleceu durante a Idade Média e afirmava que era a Terra que estava no centro do universo. Pela teoria heliocêntrica é a Terra que gira em torno do Sol.
   Mais tarde, Galileu Galilei (1564 – 1642) comprovou essa teoria através de cálculos e do uso de um telescópio desenvolvido por ele mesmo. Galileu também teve importância por formular a lei da queda dos corpos. Outro cientista importante que ajudou  a comprovar a teoria de Copérnico foi Johannes Kepler (1571 – 1630). Por ter realizado importantes  experimentos relacionados à hidráulica e à hidrostática, Leonardo da Vinci também é apontado como um dos grandes físicos da época.


          
                                                       A repressão da Igreja Católica
Para a igreja, duvidar da verdade estabelecida por ela ou estimular a curiosidade por novos conhecimentos eram atitudes consideradas desrespeitosas e ofensivas. Apesar de discordarem da Igreja, os renascentistas não eram ateus e nem romperam com a religiosidade que marcava o período medieval. Mesmo assim, muitos foram acusados de heresia, considerados inimigos da igreja e duramente perseguidos pelas autoridades religiosas. O instrumento utilizado pela Igreja Católica foi o Tribunal da InquisiçãoEsse tribunal foi criado no século XIII com a função de garantir que a doutrina da igreja fosse respeitada e de investigar e punir aqueles que ousaram não aceitar os conhecimentos defendidos pelas autoridades católicas. Galileu Galilei, por exemplo, foi acusado de heresia por defender a teoria heliocêntrica de Copérnico e para livrar-se da morte na fogueira negou publicamente suas convicções. O filosofo italiano, Giordano Bruno, não teve a mesma sorte e por defender a ideia de que o universo é infinito foi queimado na fogueira da inquisição em 1600.


Questões

1) Com suas palavras, diga o que foi o Renascimento.

2) Quais eram as características marcantes do homem do Renascimento? De que maneira os renascentistas pretendiam construir um novo conhecimento?

3) Cite e explique os principais valores do movimento renascentista.

4) Quem eram os mecenas? Por que os artistas e intelectuais do Renascimento se concentraram nas maiores e mais ricas cidades?

5) Por que o desenvolvimento da imprensa foi tão importante para o Renascimento?

6) Escreva sobre as diferenças entre os valores medievais e os valores renascentistas que marcaram o início dos tempos modernos.

7) Ao romperem com a visão que a igreja tinha sobre o mundo os renascentistas estavam negando a existência de Deus? Justifique a sua resposta.

8) Explique a diferença entre teocentrismo e antropocentrismo e geocentrismo e heliocentrismo.

9) Quem foi o autor da teoria heliocêntrica? O que ele afirmava com essa teoria?

10) Por que podemos dizer que as descobertas marítimas estão profundamente ligadas ao Renascimento?

11) Descreva  as principais características da arte renascentista e cite o nome de alguns artistas do período.

12)  Como e porque a Igreja Católica reagiu diante das novas ideias divulgadas pelo renascimento?

13) Para você, o renascimento trouxe somente avanços e prosperidade? Seu valores atingiram a todos? Justifique as suas respostas.


 [1] O século XV e XVI é marcado por importantes episódios que não podem ser compreendidos de forma separada. A conquista da América, a Reforma Protestante e o Renascimento, portanto, são episódios que se completam. O Renascimento modificou o modo de pensar, sendo decisivo para a expansão marítima e para a contestação que a Igreja Católica passou a sofrer, porém, ao mesmo tempo, tanto as descobertas de novas terras quanto o ataque contra a Igreja influenciaram a nova maneira de pensar que caracterizou o homem moderno.

[2] A partir dessa visão se criou a falsa ideia de que a Idade Média foi um período completamente perdido, no qual não ocorreram avanços. Apesar de ser um período profundamente influenciado pelo poder da Igreja e marcado pelos constantes conflitos armados, foi durante a Idade Média que surgiram, por exemplo, as primeiras universidades.  Além disso, apesar de retratar a forte presença religiosa na mentalidade das pessoas, esse período conheceu uma vasta produção artística com destaque na literatura, na arquitetura, na pintura e na música. Há inclusive autores que afirmam que o próprio termo Renascimento é equivocado, já que durante Idade Média os estudos da cultura clássica nunca foram abandonados.

[3] A Península Itálica foi o principal centro da produção artística durante o Renascimento e seu auge ocorreu entre 1450 e 1550. Esse período costuma ser divido em três fases: trecento (séc. XIV), trocento (séc. XV) e cinquecento (séc. XVI). A partir do século XVI, convidados por reis, príncipes e outras autoridades, artistas de diversas áreas passaram a viajar por toda a Europa e a difundir o movimento.

[4] Os renascentistas chamavam de gótico um estilo que consideravam de mau gosto, exótico e marcado de apelos decorativos e pelo exagero da altura das suas torres. O estilo gótico caracterizou-se pelas construções religiosas. 


2 comentários:

  1. o renascimento foi um movimento com centralização ao homem e permitiu avanços significativos na Europa e no resto do mundo comparativamente a idade media.

    ResponderExcluir