As mudanças ocorridas ao longo do Neolítico e da chamada Idade dos Metais transformaram profundamente a vida de diferentes grupos humanos. O desenvolvimento da agricultura, a criação de animais, o crescimento das aldeias, a especialização do trabalho e o aumento das trocas contribuíram, em alguns lugares, para o surgimento de sociedades mais populosas e complexas. Essas transformações não aconteceram ao mesmo tempo nem da mesma maneira em todas as regiões. Entre os lugares onde elas ocorreram muito cedo estava a Mesopotâmia, região que se desenvolveu principalmente entre os rios Tigre e Eufrates. Ali surgiram algumas das primeiras grandes cidades conhecidas e formas cada vez mais complexas de organização política, econômica e social. Ao longo de milhares de anos, diferentes povos viveram, disputaram e governaram partes da Mesopotâmia. Entre os mais importantes para o nosso estudo estão os sumérios, acádios, babilônios, assírios e neobabilônios. Esses povos não viveram todos ao mesmo tempo e não formaram uma única civilização. Mesmo assim, compartilharam e transformaram muitos elementos culturais, religiosos, econômicos e políticos.
Localização e condições geográficas
da Mesopotâmia
A palavra
Mesopotâmia tem origem grega e significa, aproximadamente, “terra entre rios”.
A região localizava-se principalmente no território do atual Iraque e também
alcançava áreas que hoje pertencem à Síria e à Turquia. Os rios Tigre e
Eufrates eram fundamentais para a vida da população. Em várias áreas do sul, as
chuvas eram insuficientes para garantir boas colheitas, por isso a agricultura
dependia do aproveitamento das águas dos rios. As cheias podiam fertilizar as
terras, mas também eram irregulares e, em alguns momentos, destrutivas.
Para
aproveitar melhor a água, as comunidades construíram canais, diques,
reservatórios e outras obras de irrigação. Essas construções exigiam
organização, trabalho coletivo e formas de administração. A irrigação foi um
dos fatores importantes para o crescimento das aldeias e das cidades, mas não
foi a única causa do surgimento de governos e Estados. A Mesopotâmia também
ocupava uma posição favorável às trocas. Como a região possuía pouca madeira,
pedra e metais, seus habitantes mantinham contatos comerciais com áreas vizinhas
para obter matérias-primas. Dessa forma, a agricultura, o comércio e a
circulação de diferentes povos ajudaram a transformar a região em um importante
espaço de contatos culturais.
Os sumérios e as primeiras cidades
Na parte
sul da Mesopotâmia, a partir do quarto milênio a.C., cresceram importantes
centros urbanos. Entre eles estavam Uruk, Ur, Eridu, Lagash e Nippur. Essas
cidades estavam ligadas à cultura que chamamos de suméria. A origem dos
sumérios ainda é discutida pelos estudiosos. Por isso, não é seguro afirmar que
chegaram à Mesopotâmia vindos de uma região específica. O que sabemos é que,
por volta de 3500 a.C., as cidades do sul já apresentavam grande
desenvolvimento urbano.
Muitas dessas cidades eram cidades-Estado, isto é, possuíam governo, território e instituições próprias. Os governantes podiam receber títulos como ensi ou lugal. Em livros didáticos mais antigos também aparece o termo patesi. O poder político estava profundamente ligado à religião, e os templos ocupavam lugar de destaque na vida econômica e social. A agricultura irrigada era a base da produção. Os sumérios também desenvolveram intensas atividades comerciais e artesanais. Cerâmica, tecelagem, metalurgia e trabalhos em pedra faziam parte da vida urbana.
Os
habitantes da Mesopotâmia também estiveram entre os primeiros povos a utilizar
veículos com rodas. Entretanto, não é possível afirmar com segurança que a roda
tenha sido inventada exclusivamente pelos sumérios, pois evidências antigas de
seu uso aparecem também em outras regiões.
A escrita cuneiforme
Uma das maiores contribuições das cidades da Mesopotâmia foi o desenvolvimento da escrita. Os primeiros registros conhecidos no sul mesopotâmico surgiram por volta de 3300 a.C. e estavam muito ligados à administração de produtos, tributos, estoques e atividades comerciais.
Inicialmente,
eram utilizados desenhos e sinais gravados em pequenas placas de argila. Com o
tempo, esses sinais se tornaram mais abstratos e passaram a ser impressos com
um instrumento em forma de cunha. Por isso, essa escrita ficou conhecida como
escrita cuneiforme. A escrita cuneiforme não permaneceu limitada aos sumérios.
Ao longo dos séculos, foi adaptada por diferentes povos e utilizada para
registrar leis, contratos, cartas, textos religiosos, poemas, relatos de guerra
e obras literárias.
O Império Acádio
As cidades
sumérias frequentemente competiam entre si pelo controle de terras, canais,
rotas e recursos. Por volta de 2330 a.C., Sargão de Acádia conquistou diversas
cidades da região e formou um grande império territorial. O chamado Império
Acádio reuniu sob uma mesma autoridade diferentes cidades e povos da
Mesopotâmia e de áreas vizinhas. Por isso, costuma ser apresentado como um dos
primeiros grandes impérios da Antiguidade.
Depois de
aproximadamente dois séculos, o poder acádio enfraqueceu. A região voltou a
passar por divisões e novas dinastias, entre elas a Terceira Dinastia de Ur.
Mais tarde, grupos amoritas passaram a controlar várias cidades e um desses
centros, Babilônia, ganhou enorme importância.
Babilônios e o reinado de Hamurábi
A cidade da Babilônia ganhou destaque no início do segundo milênio a.C. Seu governante mais conhecido foi Hamurábi, que reinou aproximadamente entre 1792 e 1750 a.C. Hamurábi ampliou seus domínios por meio de alianças e conquistas militares e transformou a Babilônia no principal centro político de grande parte da Mesopotâmia. Também promoveu obras, cuidou de canais de irrigação e fortaleceu a administração do reino.
O Código de Hamurábi
Hamurábi
ficou especialmente conhecido por mandar reunir e registrar um amplo conjunto
de leis. Essas normas foram gravadas em uma grande estela de pedra e abordavam
temas como família, propriedade, comércio, dívidas, trabalho, escravidão e
punições. O chamado Código de Hamurábi é um dos mais completos conjuntos de
leis da Antiguidade que chegaram até nós, mas não foi o primeiro código de leis
da história.
Algumas de
suas normas aplicavam o princípio que mais tarde ficou conhecido como Lei de
Talião, resumido pela expressão “olho por olho, dente por dente”. Entretanto,
nem todas as punições funcionavam dessa maneira. As penas também variavam
conforme a posição social das pessoas envolvidas, o que mostra que aquela
sociedade era profundamente desigual. Após a morte de Hamurábi, seus sucessores
não conseguiram manter a mesma extensão territorial. Em 1595 a.C., uma
expedição hitita saqueou a Babilônia. Os hititas, entretanto, não permaneceram
governando a Mesopotâmia. Depois desse episódio, uma dinastia de origem cassita
controlou a Babilônia durante vários séculos.
Os assírios
Os
assírios se desenvolveram principalmente no norte da Mesopotâmia, em torno de
cidades como Assur e Nínive. Ao longo de muitos séculos, ampliaram sua
influência e formaram diferentes reinos. Entre os séculos IX e VII a.C., o
chamado Império Neoassírio tornou-se uma das maiores potências do Oriente
Próximo. Seu exército utilizava infantaria, cavalaria, carros de guerra, armas
de ferro e sofisticadas técnicas de cerco.
Os reis assírios também empregavam deportações em massa e demonstrações de violência para controlar os povos conquistados. As próprias inscrições reais assírias faziam questão de destacar a força e o medo provocados pelo exército, por isso devemos ter cuidado ao interpretar essas descrições apenas como retratos objetivos da realidade.
Um dos
governantes mais conhecidos foi Assurbanípal. Durante seu reinado, no século
VII a.C., o império atingiu grande extensão e realizou campanhas militares
inclusive no Egito. Assurbanípal também reuniu em Nínive milhares de tabletes
cuneiformes, formando a famosa Biblioteca de Nínive. No final do século VII
a.C., revoltas internas e ataques de inimigos enfraqueceram o império. Em 612
a.C., Nínive foi conquistada por uma aliança de babilônios e medos. Poucos anos
depois, o domínio assírio chegou ao fim.
O Segundo Império Babilônico
Com o enfraquecimento dos assírios, a Babilônia voltou a se tornar o centro de um grande reino. Esse período é conhecido como Império Neobabilônico ou Segundo Império Babilônico. O fundador dessa nova dinastia foi Nabopolassar, mas o governante de maior destaque foi seu filho, Nabucodonosor II, que reinou entre 605 e 562 a.C. Durante seu governo, a Babilônia foi ampliada e embelezada com muralhas, palácios, templos e grandes portas monumentais. Nabucodonosor também realizou campanhas militares no Oriente Próximo. Jerusalém foi conquistada em diferentes momentos, especialmente em 597 e em 587/586 a.C. Parte da população de Judá foi deportada para a Babilônia. Esse episódio ficou conhecido como Cativeiro ou Exílio da Babilônia.
Os famosos
Jardins Suspensos da Babilônia são tradicionalmente associados a esse período.
Entretanto, sua existência e localização continuam sendo discutidas pelos
historiadores e arqueólogos, pois não há confirmação segura de que tenham sido
construídos na própria Babilônia. A chamada Torre de Babel, conhecida pelo
relato bíblico, costuma ser relacionada ao grande zigurate Etemenanki, dedicado
ao deus Marduk. Não podemos, porém, tratar o relato bíblico e o monumento
arqueológico como se fossem exatamente a mesma coisa. Em 539 a.C., a Babilônia
foi conquistada pelos persas comandados por Ciro II, conhecido como Ciro, o
Grande. A partir desse momento, a Mesopotâmia passou a fazer parte do Império
Persa.
A organização social, política e
econômica
Apesar das
diferenças entre os diversos povos e períodos da história mesopotâmica, algumas
características gerais podem ser observadas. É importante lembrar, porém, que
uma sociedade que existiu durante milhares de anos não permaneceu igual o tempo
todo.
Sociedade
As sociedades mesopotâmicas eram hierarquizadas. Reis, membros das elites, grandes proprietários, sacerdotes e altos funcionários ocupavam posições privilegiadas. Artesãos, comerciantes, agricultores e trabalhadores urbanos formavam grande parte da população. Também existiam pessoas em diferentes graus de dependência e pessoas escravizadas. A escravidão podia resultar de guerras, dívidas ou outras formas de submissão. Mesmo assim, os escravizados não constituíam a maioria da população trabalhadora em todos os períodos. As leis mostram que os direitos e as punições podiam variar de acordo com a posição social. Por isso, é mais correto falar em diferentes grupos sociais do que imaginar uma divisão idêntica e fixa para todos os povos da Mesopotâmia.
Política
O poder
político variou bastante. Em alguns períodos existiram cidades-Estado
independentes; em outros, grandes reinos e impérios. Os governantes mantinham
uma relação estreita com a religião. Em geral, eram apresentados como escolhidos
ou protegidos pelos deuses e tinham a responsabilidade de garantir a ordem, a
justiça, a defesa e a prosperidade do território. O rei era auxiliado por
sacerdotes, escribas, militares, administradores e outros funcionários. A
escrita foi fundamental para registrar impostos, estoques, contratos, decisões
e ordens do governo.
Economia
A agricultura irrigada era uma das bases da economia mesopotâmica. Cevada, trigo, tâmaras e outros produtos eram cultivados em diferentes regiões. A criação de animais, o artesanato e o comércio também tinham grande importância. Como a Mesopotâmia possuía poucos recursos como madeira, metais e determinadas pedras, esses produtos precisavam ser obtidos por meio de redes comerciais que alcançavam regiões distantes. Os mesopotâmicos desenvolveram sistemas de empréstimos, contratos e cobrança de juros. A prata era frequentemente usada como medida de valor e podia ser pesada nas transações. Isso não significa, porém, que existissem moedas cunhadas como as que surgiriam posteriormente em outras regiões.
Religião
A religião
fazia parte de praticamente todos os aspectos da vida mesopotâmica. Os povos da
região eram politeístas e cultuavam diferentes divindades.Cada cidade possuía
divindades protetoras, mas muitos deuses eram conhecidos em várias regiões.
Entre eles estavam Anu, Enlil, Enki/Ea, Inanna/Ishtar, Shamash e Marduk. Os
deuses eram relacionados às forças da natureza, à fertilidade, ao céu, às
águas, à justiça, à guerra e a muitas outras dimensões da vida. Uma das construções
mais conhecidas da Mesopotâmia era o zigurate. Tratava-se de uma grande
estrutura em plataformas sobrepostas associada aos templos e ao culto
religioso. No alto podia existir um santuário dedicado à divindade da cidade. Os
zigurates não eram pirâmides funerárias como as do Egito. Sua função estava
ligada principalmente à religião e à vida dos templos.
Conhecimentos e legado
Os povos da Mesopotâmia desenvolveram importantes conhecimentos em matemática, astronomia, arquitetura, medicina, administração e escrita. Na matemática, utilizaram um sistema numérico de base 60. Essa tradição ajuda a explicar por que ainda hoje dividimos a hora em 60 minutos, o minuto em 60 segundos e o círculo em 360 graus.
Os
estudiosos mesopotâmicos observaram cuidadosamente os movimentos do Sol, da Lua
e dos planetas. Elaboraram calendários baseados principalmente nos ciclos
lunares e desenvolveram conhecimentos astronômicos cada vez mais precisos. A
astrologia também teve grande importância. Os movimentos dos astros eram interpretados
como sinais capazes de revelar a vontade dos deuses e indicar acontecimentos
futuros.
A escrita
permitiu registrar conhecimentos, leis, narrativas, acordos e acontecimentos.
Entre as obras literárias mais famosas da Mesopotâmia está a Epopeia de Gilgamesh,
que reúne antigas narrativas sobre o rei de Uruk. O legado mesopotâmico não
deve ser entendido como uma lista de “invenções” que chegaram diretamente até
nós sem mudanças. Muitos conhecimentos foram transmitidos, adaptados e
transformados por diferentes povos ao longo de milhares de anos.
Atividades
1.
Explique por que a Mesopotâmia
foi uma região favorável ao desenvolvimento de sociedades urbanas.
2.
Qual era a importância dos rios
Tigre e Eufrates para a agricultura?
3.
Por que a construção de canais
e diques exigia organização coletiva?
4.
O que eram as cidades-Estado
sumérias?
5.
Por que devemos ter cuidado ao
afirmar que os sumérios “inventaram a roda”?
6.
Como surgiu a escrita
cuneiforme e para que ela era utilizada inicialmente?
7.
Quem foi Sargão de Acádia e qual
foi a importância do Império Acádio?
8.
Por que Hamurábi se tornou um
dos governantes mais conhecidos da Babilônia?
9.
Explique por que o Código de
Hamurábi não pode ser resumido apenas à expressão “olho por olho, dente por
dente”.
10.
O que aconteceu com a Babilônia
depois do reinado de Hamurábi?
11.
Quais características ajudaram
o Império Assírio a se expandir?
12.
Qual foi a importância da
Biblioteca de Nínive?
13.
Como terminou o domínio assírio
na Mesopotâmia?
14.
Quem foi Nabucodonosor II e
quais acontecimentos marcaram seu reinado?
15.
O que foi o Cativeiro da
Babilônia?
16.
Por que os Jardins Suspensos da
Babilônia devem ser apresentados com cautela?
17.
Como estavam organizadas, de
maneira geral, as sociedades mesopotâmicas?
18.
Quais eram as principais
atividades econômicas da Mesopotâmia?
19.
Como a religião influenciava a
vida política e social?
20.
O que eram os zigurates?
21.
Que conhecimentos matemáticos e
astronômicos desenvolvidos na Mesopotâmia tiveram influência duradoura?
22.
Por que não é correto imaginar
os povos da Mesopotâmia como uma única civilização que permaneceu igual durante
milhares de anos?
Referências
bibliográficas
LIVERANI, Mario. Antigo Oriente: história,
sociedade e economia. São Paulo: Edusp, 2016.
LEICK, Gwendolyn. Mesopotâmia: a invenção da
cidade. Rio de Janeiro: Imago, 2003.
KRAMER, Samuel Noah. A história começa na
Suméria. Lisboa: Europa-América, 1997.
KRAMER, Samuel Noah. Mesopotâmia: o berço da
civilização. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969.
LÉVÊQUE, Pierre. As primeiras civilizações.
Lisboa: Edições 70, 2009.
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Muito bom !!!
ResponderExcluirb uy 6ctcic67 pox7v79´g80h
ResponderExcluir8j y uiyro c7p8 ´0v c 7o070c0 7 luçgpci\y
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ExcluirObg mas ñ ajudou
ResponderExcluirAjudou muito muito obrigado
ResponderExcluirposta as parodias prof!!! por favor
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